quarta-feira, 16 de abril de 2014

ATPC - 16/04/2014

O irônico sorriso do gato
Mario Sergio Cortella*

A escolha dos caminhos depende do lugar almejado

Há alguns meses, participando de um congresso sobre O Professor e a Leitura de Jornal, pudemos debater a respeito da "overdose" ferramental que invade cada vez mais o cotidiano social e, sem dúvida, também o mundo da escola.
Relembrávamos nesse debate uma das mais contundentes reflexões sobre a vida humana e que não pode ser esquecida, tamanha é a importância que carrega também para o debate pedagógico: Alice no País das Maravilhas, escrita no século XIX pelo matemático inglês Charles Dodgson (que deu a si mesmo o apelido Lewis Carroll).
Nessa obra, Alice cai. Ela está atrás de um coelho e cai em um mundo desconhecido (na verdade, a menina cai dentro de si mesma). Entre as inúmeras personagens fantásticas da obra, duas delas estão muito próximas de nós: uma é um coelho que está sempre atrasado, correndo para lá e para cá com o relógio na mão; a outra é um gato do qual somente aparece o sorriso, somente ficam visíveis os dentes e, às vezes, o rabo. Há uma cena que a gente não deve ocultar – principalmente quando se fala em ferramentas para o trabalho pedagógico e, muitas vezes, da percepção equivocada da tecnologia como redentora da educação: o encontro de Alice com o gato. Contando resumidamente, na cena, Alice está perdida, andando naquele lugar e, de repente, vê no alto da árvore o gato. Só o rabão do gato e aquele sorriso. Ela olha para ele lá em cima e diz assim: "Você pode me ajudar?" Ele falou: "Sim, pois não." "Para onde vai essa estrada?", pergunta ela. Ele respondeu com outra pergunta (que sempre de! vemos nos fazer): "Para onde você quer ir?". Ela disse: "Eu não sei, estou perdida." Ele, então, diz assim: "Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve."



Para quem não sabe para onde vai, serve de qualquer maneira o jornal, a revista, o livro, a internet, o videocassete, o cinema etc. E aí, qualquer um de nós, na ansiedade de modernizar o modelo pedagógico, eletrifica sofregamente a sala de aula ou, mais desesperadamente, sonha em fazer isso, imaginando o quanto o trabalho seria espetacular com esses instrumentos. Daí, se possível, o professor enche a sala de aparatos tecnológicos, como se, para fazer algo que interesse às pessoas, precisasse eletrificar continuamente o processo, metendo aparelhos eletrônicos ligados para todo o lado. Muitos dizem que, como os alunos estão habituados com isso, precisamos modernizar o ensino. Será?
Depende da finalidade do "para onde se desejar ir". Se você sabe para onde quer ir, vai usar a ferramenta necessária. O que se deve modernizar não é primeiramente a ferramenta, mas sim o tratamento intencional dado aos conteúdos trabalhados na escola.
Por isso, é preciso trazer sempre na memória o ditado chinês que diz: "Quando você aponta a lua bela e brilhante, o tolo olha atentamente a ponta do seu dedo."
*Professor de pós-graduação em educação (Currículo) da PUC-SP.


Seguindo a onda atual, temos aqui, este sim considerado um pensador, Lewis Carroll, escritor do livro referenciado no texto acima. Lewis era matemático, e fanático por jogos e enigmas, os quais permeiam suas obras literárias.

Abaixo seguem alguns links, onde os professores de diversas áreas podem se valer desta obra para trabalhar com os alunos, principalmente sob a metodologia da Aprendizagem Baseada em Problemas. 



Agora reflita:
Sabemos onde estamos indo? Onde queremos chegar?


Bom trabalho!


21 comentários:

  1. Não sabemos onde estamos indo, mas sabemos onde queremos chegar. Estamos vivendo um momento histórico na Educação Brasileira. Um momento em que milhares de brasileiros anseiam por mudanças no sistema educacional, mas quais mudanças realmente queremos? Todos os sistemas oficiais de avaliação demonstram que o nosso sistema educacional é um fracasso, entretanto, ninguém tem uma explicação convincente para tal fracasso, que se arrasta por décadas. Não estamos conseguindo ser diferentes. Não estamos indo além do trivial, não criamos expectativas e não apresentamos diferenciais. Nosso padrão de gestão e de avaliação está muito longe daqueles que nos mostraria que rumo a seguir. Talvez por não termos sido capazes de pensar a nossa educação de forma ampla, mais adequada a cada realidade e necessidade. Muitas vezes, não sabemos onde queremos chegar. Quais nossos objetivos? Onde estão os espelhos, as experiências de sucesso e por que não servem de modelo para outras tantas?
    O ciclo de excelência que imaginamos tem que se atentar para ter políticas educacionais firmes, coerentes e honestas. Há de se ter também instituições diferenciadas e bem preparadas e professores excelentes (críticos, bem formados, bem pagos, bem orientados), com isso formaremos alunos satisfeitos e de alta qualidade e assim os resultados aparecerão e serão surpreendentes.
    James

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. A vida nos ensina que o caminho da aprendizagem passa necessariamente pelos desvios das tentativas, dos erros e das improvisações que nos motivam a buscar e a encontrar as devidas providências soluções. Essa busca é uma recompensa gratificante para quem é perseverante o suficiente e confiante em Deus.

    ResponderExcluir
  4. Amei o exemplo escolhido como referência, mesmo porque assisti ao vídeo com os alunos nada menos que 14 vezes ! Os alunos também gostaram muito e foi um trabalho muito prazeroso, divertido e mais enriquecedor ainda, pois surpreendeu-me as análises feitas por eles ! É claro que nem sempre temos tempo para usar os instrumentos tecnológicos que temos acesso, mas cabe-nos a tarefa de escolher o que cada um pode contribuir no ensino do conteúdo programático planejado, pois a teoria na prática é outra coisa, já que a palavra ensina, mas é o exemplo que arrasta ! Jacqueline

    ResponderExcluir
  5. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  6. Em meio a tantos conceitos e princípios referenciados sempre que o tema educação vem à baila, perfeitamente compreensível que fiquemos desnorteados e que percamos o fio da meada indicando-nos o caminho a ser trilhado. Sabemos perfeitamente que o panorama educacional em nosso país encontra-se sombrio e com poucas perspectivas de mudança, desde a década de 1990, quando se acentuou drasticamente a queda da qualidade do ensino ministrado nas escolas.
    Apesar disso, estamos cientes de quais são os fatores mais importantes para uma educação de qualidade: professores bem pagos, bem formados, atualizados, uma gestão competente e segura, famílias presentes, estrutura escolar adequada, disciplina e comprometimento de todos. Penso que sabemos onde queremos chegar, sim, porém enquanto os órgãos competentes tratarem a educação como supérfluo, e não atenderem a todos os requisitos necessários para o êxito nesse sentido, continuaremos nos perdendo por atalhos que não nos levam a lugar algum.
    E assim, se de repente nos depararmos com o gato de Alice no País das Maravilhas, talvez tenhamos a resposta para este enigma: sabemos onde
    Obs.: esse livro é fantástico, e possibilita inúmeras reflexões.
    Mônica Monnerat

    ResponderExcluir
  7. Errata - penúltimo parágrafo (leia-se:)
    E assim, se de repente nos depararmos com o gato de Alice no País das Maravilhas, talvez tenhamos a resposta para este enigma: por qual caminho devemos seguir?

    ResponderExcluir
  8. Essa questão é, sem dúvida, muito intrigante e, de fato, merece muita reflexão de nossa parte, professores e educadores em geral. Muitas vezes, não sabemos onde queremos chegar. Quais os nossos objetivos? Qual rumo devemos seguir? Qual caminho trilhar? Como podemos intervir? Ficamos somente no “lugar comum”, não inovamos e não criamos.
    É fato que modificações ocorreram, entretanto, a adequação de novas metodologias deensino-aprendizagem ainda se defrontam com o modelo tradicional de ensino. É o caso da aprendizagem baseada em problemas, que é um modelo educacional estimulante, participativo, que remete os alunos a buscarem soluções para problemas vivenciais, relacionando teoria e prática de forma integrada.
    Evidências indicam que a participação ativa na aprendizagem é mais produtiva do que a transferência passiva de informações do professor ao aluno e que a aprendizagem ativa incrementa a absorção do conteúdo e a recordação. O aprendizado baseado em problemas enfatiza a aprendizagem ativa centrada no aluno, na qual esses alunos são desafiados a problematizar, pesquisar, refletir, dar significado e entender o conteúdo, uma vez que desenvolvem abordagens para a solução de problemas específicos.
    A discussão de um problema, em pequenos grupos promove a conexão de ideias e conceitos e favorece a cooperação em lugar de competição entre os alunos. A exploração do conhecimento prévio dos alunos, a formulação de questões definidas em função do que precisam conhecer e a construção ativa do significado através do diálogo e reflexão promovem a absorção a longo prazo das novas informações adquiridas.
    Precisamos refletir e buscar soluções inovadoras.
    Prof. Carlos Augusto Balula Moraes.

    ResponderExcluir
  9. Em um mundo tecnológico, onde as crianças e jovens são direcionadas a ter cada vez menos contato pessoal, a cobrança por resultados rápidos é uma constante e assim transforma-se em um fator agravante ao processo de sociabilização, cada vez mais as ferramentas se inovam, mas do que adianta ter ferramentas...se pouco se constrói. Tanta informação as vezes, se torna difícil sabermos onde "estamos na verdade", e o fato do questionamento de onde estamos e onde queremos ir, na verdade se torna absoleto.
    Qualquer que seja o lugar, o resultado que possamos querer nada é novo....pois está lá no passado....já nos encontramos uma vez, e este momento se perdeu....como aquele ditado: "éramos felizes e não sabíamos"....por isso não basta questionar onde queremos chegar...e sim...a que ponto chegamos...e porque chegamos.

    ResponderExcluir
  10. Não sei onde estou indo, não sei onde quero chegar. Os alunos em sua maioria também não sabem para onde estão indo e muito menos onde querem chegar. A educação se perdeu em algum momento......A linguagem entre alunos e professores não é a mesma, existe um desencontro muito grande. O meu foco é a minoria e percebo que deveria ser a maioria....Me vejo num ensino médio tradicional, que foca e prepara o aluno apenas para realizar provas e testes, como se isso fosse a única forma correta de gerar aprendizado. A neurose por ter notas altas em dispositivos caóticos como o ENEM toma conta de muitos educadores. O sistema é falho, o aluno não retém o aprendizado. Em matemática o básico não foi fixado, o raciocínio lógico foi esquecido e a leitura e interpretação já aparecem prontas na internet.Aí eu me pergunto......onde quero chegar?

    ResponderExcluir
  11. Assim como minha colega Christiane Vendramini disse acima: "Não sei onde estou indo, não sei onde quero chegar". Sei onde o Estado está indo e não sei se quero chegar lá, há coisas que me desagradam. Vivemos mudando de opinião, colhendo informações, adicionando e removendo, como definir o percurso? Temos uma comanda, mas que podemos encaminha-la de várias maneiras. A tecnologia vem para aprimorar tudo isso, facilitar a visualização e até a comunicação entre todos nós, mas nem sempre ela ajuda por "ignorância" nossa e dos alunos, o que fazer??? para onde correr??? Também tenho dúvidas! Algumas posso sanar com meus colegas de serviço, outras com os alunos, com a equipe gestora....mas e as outras??? Não sei onde posso encontrar essas respostas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Vivemos numa sociedade em que sempre é preciso saber. Contudo, nem sempre o que queremos conseguimos realização completa, principalmente no que diz respeito a mudança na educação. Que tal refletirmos também?
      Que tipo de escola é ideal para construir um mundo mais democrático? Que escola sonhamos para assegurar a todos à formação cultural e científica para vida pessoal, profissional e cidadã? Não basta a escola adquirir recursos tecnológicos e materiais pedagógicos sofisticados e modernos. Faz- se necessário na educação, construir novas concepções pedagógicas .
      A tecnologia é capaz de ajudar o professor, mas não o substitui. È uma ferramenta fundamental,porém as pessoas não devem sentir aprisionadas , e sim reconhecer que são ferramentas contributivas ao desenvolvimento social, econômico, cultural e intelectual.
      Todo ser humano busca mudanças significativas que contemplem os seus anseios e possa chegar lá,porém diante dos obstáculos por inúmeros fatores ,essa esperança passa a ser tardia. O mesmo não é diferente com a educação., haja vista as políticas públicas e as mudanças no sistema educacional.
      Gosto muito de uma frase do Cortella. O maior prazer é didatizar o que é erudito de maneira que possa ser partilhado com pessoas . Esse não é o nosso trabalho
      Denise

      Excluir
    2. A bela reflexão dada através de Lewis Carol, com o personagem gato, faz com que não se perca a ideia de para onde estamos apontando nosso trabalho. Não perder de vista o caminho que busca, e que muitas vezes nos perdemos assim como a Alice, é de fundamental importância, já que confusões tecnológicas podem nos deixar acreditando que o nosso sistema já está ultrapassado e muitas vezes não está. A introdução de novos avanços pedagógicos é importante, não há sombra de duvida, mas a todo instante. Devemos questionar nossa pratica durante todo o percurso pois podemos estar caminhando sem rumo para qualquer lugar e para quem está perdido “...qualquer caminho serve”, como diria o nosso amigo gato. Prof. Arnaldo Santana

      Excluir
    3. Errata - Resposta Denise, onde se lê: Esse não é o nosso trabalho, leia-se: Esse não é o nosso trabalho?

      Excluir
  12. Trata-se de um tema muito controvertido, analisando-o do ponto de vista governamental. Nós professores temos outra visão, outros ideais e caminhos bem diferentes para trilhar, porém a política pública nos tolhe das opções que verdadeiramente entendemos que devessem ser o caminho adequado. Enfim, buscamos espaços e caminhos democráticos, porém, nos vemos a trilhar outros não tão democráticos e improváveis de sucesso, haja vista os rumos e resultados alcançados nas últimas décadas. Uma verdadeira falsidade, um monstro escondido e maculado por números manipuláveis.
    É isso.
    prof. SIDNEI

    ResponderExcluir
  13. Sabemos onde queremos chegar quando pensamos que a aula não é centrada no que nós professores preferimos, mas sim na realidade atual de maneira que qualquer conteúdo esteja em funcao de transformar esta realidade.
    Quando temos este pensamento, a simples interação, metodologia centrada no aluno em sala de aula, pode ser tão ou mais interessante que recursos os tecnológicos mais modernos.
    Claro, é função da escola acompanhar todo o desenvolvimento social e suas tecnologias, no entanto, saber dar importância ao que cada aluno pode aprender realmente com o currículo é ter como prioridade objetivos específicos com o que se quer, onde se quer chegar através da educação escolar.


    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Claro que sabemos onde estamos indo, o que queremos, o que podemos e o que não podemos fazer e, diferente de Alice, já escolhemos o nosso caminho. O importante neste caso é saber se podemos atigir nosso objetivos, não no sentido de uma aposentaria, saúde, etc. mas sentir o prazer de algo realizado.
      O mundo da tecnologia é um desafio, não de aprender, porque fazemos curso e pronto, mas de conseguir chamar a atenção do estudante, disputar de igual para igual com seu celular, tablet, o que for. Então a dica do gato seria, "seja criativo", "pense" e você vai achar a estrada que procura.
      Walter

      Excluir
  14. O caminho nesse caso se refaz a cada dia, o destino é que parece distante e por vezes aquém de nossa alçada. Em sala busco estimular os adolescentes a desenvolverem as diversas habilidades, tais como ler, escrever, argumentar oralmente, articular diversos tipos de ferramentas e a interagirem entre si, desenvolvendo sempre que possível a alteridade e desvelando os conflitos, o que é fundamental para a democracia. Outra resposta possível seria: diferentemente de Alice temos metas a bater, estatísticas a superar, números a serem alcançados. Fernando X.

    ResponderExcluir
  15. Ao ler o presente artigo do professor e filósofo Mario Sergio Cortella me veio à mente uma letra do grupo Engenheiros do Hawaii "Você me faz correr demais
    Os riscos desta highway /Você me faz correr atrás /Do horizonte desta highway /Ninguém por perto, silêncio no deserto, /Deserta highway /Estamos sós e nenhum de nós /Sabe exatamente onde vai parar /Mas não precisamos saber pra onde vamos /Nós só precisamos ir /Não queremos ter o que não temos /Nós só queremos viver ..." e creio que a metáfora evocada em Alice nos leva a vários paradoxos razão/emoção; infância/amadurecimento; ser criança ou adulto. Diante destes cenarios penso que o papel do educador é ser um semeador, que prepara a terra, lança as sementes e confia no amanhã. Sabe que nao está em suas mãos o controle de todos os fatores, mas faz sua parte. Não quero acreditar que meu trabalho seja em vão, porém procuro colaborar para um mundo melhor. Acredito que em última instância cabe ao educador mostrar ao educando que apesar de tudo ainda podemos sonhar. Acreditar na vida e lutar por um mundo melhor devem estar presentes no cotidiano escolar.

    ResponderExcluir
  16. Com certeza sei onde estou indo ou melhor por onde estou caminhando.
    A Escola pública de qualidade ainda não foi alcançada.
    A realidade é uma sociedade onde os jovens estão carentes de conceitos fundamentais que os ajudem a transformarem o mundo em que vivem.
    As estratégias para alcançar os objetivos são modificadas a cada aula, porém uma parte dos alunos é desinteressada.
    Respostas??? Não temos.
    Continuemos a caminhar e tentar acertar o caminho.
    Quero chegar numa Escola Transformadora.

    Maria Alcedina

    ResponderExcluir
  17. digo transformar.
    Maria Alcedina

    ResponderExcluir